Dojo Dojinmon, Wado-ryu em Porto Alegre

O Dojo Dojinmon é um dojo de Wado-ryu situado em uma área muito boa de Porto Alegre (Brasil), e dirigido pelo prof. Nelson d’Avila Guimarães. Ele possui 5º Dan pela Wado-ryu Karate-do Renmei (Japão) e 6º Dan pela Confederação Brasileira de Karate.

Essa foi a primeira vez que eu visitei um dojo de Wado-ryu. Eu estava muito entusiasmado para realizar a visita, pois estava curioso para descobrir a semelhança do treinamento do Wado-ryu com o do Shotokan. Evidentemente, você não pode ter uma opinião conclusiva visitando apenas um dojo, mas a minha curiosidade era muito grande.

Entrance

Em primeiro lugar, a visita não havia sido planejada até uma semana atrás. Um dos meus amigos do Facebook, Fabricio Bertoluci, soube que eu estava visitando Porto Alegre em novembro. Nós decidimos nos encontrar no dia 3, e simplesmente conversar sobre karate. Eu sou um nerd de karate, então eu estou aberto a qualquer oportunidade de encontrar outro karateka. Até o momento em que o encontrei, eu não havia percebido que ele era um praticante de Wado-ryu. Eu o achei uma pessoa muito dedicada e interessante. Eu apreciei o nosso encontro e nós discutimos muitos assuntos diferentes, incluindo os benefícios e os malefícios do levantamento de pesos, os benefícios do karate à saúde dos pacientes com doenças físicas e/ou mentais, etc. Fabricio está fazendo sessões de fisioterapia devido a uma lesão nos joelhos, então ele possuía experiência nesses assuntos. Além disso, agora mesmo ele está realizando um curso universitário onde estuda fisioterapia e medicina do esporte, de modo que a sua opinião era apoiada por uma base médica e científica, o que tornou a nossa conversa mais interessante.

Durante o encontro, eu mencionei que nunca havia visitado um dojo de Wado-ryu, e Fabricio me convidou para fazer uma visita ao seu dojo. É claro que ele tinha que falar com o seu sensei e conseguir a permissão primeiro, então ele não pôde prometer uma visita para o mesmo dia. Depois de alguns dias, ele recebeu a permissão e assim eu visitei o seu dojo, o Dojinmon Dojo, em 10 de novembro. Ele está localizado em uma área residencial do centro de Porto Alegre. O dojo possui uma fachada muito bonita, e é uma casa convertida em escola de karate (veja foto acima). Ele estava muito limpo e organizado. Eu fiquei muito satisfeito em não ter visto muitos troféus e outras quinquilharias que são comuns em muitos outros dojos que eu já visitei. Eu conheci o Shihan Nelson Guimarães, instrutor-chefe, eu o achei um indivíduo confiante e cortês.

Isso tudo deu o tom da visita, e todos os praticantes do lugar me deram as boas-vindas.

A aula foi iniciada às 18 horas, e eles praticaram exercícios intensos de aquecimento, que duraram mais de 20 minutos. Esses exercícios foram conduzidos pelo instrutor assistente, Diego Tamagnone sensei. Eu fiquei um tanto surpreso de que eles começavam os exercícios de aquecimento sem o ritual de alinhar-se lado-a-lado, mas eu descobri que eles fazem isso depois dos exercícios de aquecimento. Assim, depois do aquecimento, o Shihan Nelson levantou-se e juntou-se ao grupo. Eles fizeram o ritual em fila, que era muito similar ao que nós, dojos de Shotokan, realizamos, e então começaram o treinamento. Havia cerca de uma dúzia de alunos no início, mas muitos outros chegaram mais tarde, conforme a aula avançava. Ao final, havia cerca de vinte alunos, a maioria deles de graduação mais avançada (faixa marrom e acima), mas havia também alguns alunos iniciantes e intermediários. Estes usavam faixa azul, mas eu não saberia dizer qual era o nível da sua graduação kyu. Foi uma aula mista, e todos seguiram o mesmo currículo de treino.

O treinamento de fato durou cerca de 45 minutos, e eles passaram metade do tempo com kihon. A maioria das técnicas que eles praticavam eram bastante similares às nossas. Como suspeitava, eu não vi yoko geri keage, embora eles praticassem gedan kekomi. Eles usavam a postura sanchin-dachi quando praticavam socos em postura estática. No idogeiko (prática com deslocamento do corpo), eles usaram zenkutsu-dachi, kokutsu e kiba-dachi. Eu não me recordo de tê-los visto utilizar neko-ashi-dachi. Eles podem utilizá-la, mas eu não vi essa postura no kihon keiko. Uma grande diferença que eu notei no kihon keiko é que eles têm um irimi tsuki, onde você reclina para frente a parte superior do seu corpo, em uma posição acentuada de hanmi, enquanto desfere um soco. Eles também praticaram muitos socos no nível gedan, haito uchi e teisho uchi. Eu ouvi que o Shihan Nelson acredita no karate do tipo bujutsu em vez do karate esportivo, razão pela qual eles praticavam essas técnicas.

Depois do kihon, eles praticaram kumite, com ippon kumite. Eu fiquei impressionado de eles não usarem a combinação comum que nós vemos no Shotokan: jodan age-uke e chudan gyaku-zuki. Eles faziam jodan nagashi-uke e havia vários contragolpes, incluindo uraken, enpi e, como eu suspeitava, um arremesso. Eles iniciaram com ataque de ippon zuki (um soco) e então mudaram para o ataque com nihon zuki (dois socos), no qual um oponente defenderia esses dois socos antes de desferir o contra-ataque. Eu achei que as suas técnicas de kihon kumite são mais próximas do bunkai. Eu também tive a satisfação de ver que eles não faziam os sanbon e gohon kumite que são muito populares nos dojos de Shotokan.

A última parte do treino foi, claro, kata. Eles usavam os nomes antigos para os seus katas, já que Otsuka, o fundador do Wado-ryu, separou-se de Funakoshi antes de Funakoshi ter mudado os nomes dos katas para nomes japoneses. Por exemplo, eles praticam Kanku Dai, mas o chamam de Kushanku. Eu não considerei a questão dos nomes como sendo importante, mas eu apenas queria incluir esse detalhe no relato. Eles praticaram muitos katas além do Kanku Dai, incluindo Bassai Dai e Tekki Shodan. Eles pareciam similares aos nossos katas e bastante reconhecíveis. Contudo, as diferenças também eram notáveis. Eu não digo que eles eram melhores ou piores, mas simplesmente acredito que os seus katas eram mais próximos daquilo que Funakoshi trouxe de Okinawa. Em outras palavras, eles (praticantes de Wado-ryu) mantiveram os katas mais próximo daquilo que Funakoshi ensinava no início do século XX. Por outro lado, para o grupo do Shotokan houve uma grande mudança, trazida por Yoshitaka, filho de Funakoshi, bem como pela influência de Nakayama. Esses dois senseis trouxeram os movimentos mais amplos dos braços e pernas, bem como as posturas mais baixas. Assim, o estudo dos katas do Wado-ryu é uma excelente referência se você deseja ver os katas antes das mudanças, ou mais próximos das formas originais.

Eu fiquei surpreso que o Shihan Nelson me permitiu compartilhar algumas ideias do karate Asai. Ele me pediu para usar de dez a quinze minutos para compartilhar algo com seus alunos. Assim, eu vesti o meu gi e tive uma sessão bastante informal sem nenhum ritual. Depois de me apresentar aos alunos, eu abordei o conceito dos três requisitos que são necessários para construir um karate forte. Os três requisitos são: flexibilidade, equilíbrio e pernas fortes. Eu selecionei dois ou três exercícios típicos para treinar esses três pontos. Devido ao pouco tempo, nós fizemos apenas dez ou vinte repetições de cada exercício. Eu não achei que os alunos ficaram cansados, mas ao menos eu espero que eles tenham podido ter uma ideia de como funcionava o que foi mostrado a eles. Os exercícios foram a única coisa que eu pude apresentar, e eu não pude demonstrar nenhuma técnica do estilo Asai. Eu fiquei impressionado que os alunos eram mais flexíveis e coordenados que a média dos praticantes. Eu espero que os aspectos que eu cobri tenham sido algo novo e benéfico para eles. Eu estou ansioso para receber o feedback dos alunos.

Ao final da sessão, nós tiramos uma fotografia de grupo. O Shihan Nelson teve a gentileza de me convidar para um retorno quando eu visitar Porto Alegre novamente. Muito obrigado ao prof. Nelson e todos os seus alunos.

(Nota)

Eu quero enfatizar que a minha observação do treinamento do Dojinmon não é completa nem conclusiva. Eu estava com outros dois visitantes e a minha atenção ao treinamento foi interrompida várias vezes, assim eu posso ter perdido muitas coisas do currículo. Se você porventura encontrar alguma consideração negativa no meu relato, note que não foi minha intenção criticar o Wado-ryu ou o dojo Dojinmon. Eu possuo apenas respeito total por ambos. A minha intenção com meu relato é sempre comparar e aprender. Eu espero que os leitores façam o mesmo.

Wado-ryu Dojinmon Dojo Nov 2014 #2

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